A analogia do quiabo

Modéstia à parte eu tenho certa facilidade pra escrever, nem sempre ficam bons, e também não saem assim do nada, tipo sentar, começar a digitar e pimba, mais um texto sai do forno.

O mais gostoso do processo é como os textos surgem. Alguns de revolta, outros de algo que vivenciei ou simplesmente vi passar na rua, outros ainda de alguma atitude que às vezes dura alguns segundos, mas toca, outros da TV, da internet, de amigos, de conversas com o marido, vendo um ponto de ônibus, uma fila de supermercado, enfim me sinto a todo momento bombardeada por algo que me enche de ideias.

Depois “escrevo” a história todinha na minha cabeça enquanto faço qualquer outra coisa e quando ela pede pra sair, eu sento e escrevo. É uma loucura. Essa técnica eu aprendi quando fazia teatro e percebi que minha imaginação era fértil demais, mas que isso não era nenhum problema mental… ufa.

E o texto de hoje saiu da minha cozinha:

O prato de hoje seria simples, arroz e carne moída com batata e cenoura, talvez uma saladinha pra acompanhar, mas pensando bem não estava a fim de comer saladinha nenhuma. Fui buscar na geladeira algum vegetal a mais que me animasse e encontrei um pacotinho de quiabo quase esquecido por lá.

Como estava a algum tempo na geladeira (acho que uns 10 dias) eu tive que fazer uma boa triagem pra descartar partes ruins. Fiquei surpresa que eram pouquíssimas.

– Bicho resistente esse quiabo!

Costumo fazer o quiabo frito, então o corto em rodelinhas e numa frigideira bem quente com um fio de óleo ou azeite e frito com cebola e alho picados, tempero com sal e pimenta do reino e está pronto. Se ele ficar com uns pontinhos pretos tostados, melhor ainda.

Enquanto eu cortava o quiabo em rodelas eu olhava para aquela baba toda e pensava:

– Porque diabos tem tanta receita na internet ensinando a tirar a baba do coitado? Esse não seria o propósito de existência do quiabo? Babar?

Aí eu fiquei conversando com meus botões e pensando que por aí nesse mundão de meu Deus deve ter muita gente achando que sua própria baba não presta, que assim precisa ser eliminada, ou gente que faz a gente pensar que nossa baba é descartável e não serve pra nada. E mecanismos e mais mecanismos surgem com o único objetivo de tirar a razão de ser de alguém. Ou a baba do quiabo.

– Mas é justamente a baba que define o quiabo! A natureza dele é ser babento. Quem não gosta disso não deveria comer, ao invés de tentar modificá-lo.

Fiquei incomodada igualmente fico quando alguém diz que não come cebola por que não gosta do crac crac da mesma.

– Heim?!?!? A cebola nasceu pra frazer crac crac! Deixe a coitada com seu crac crac em paz!

Eu não gosto de jiló por causa de seu amargo, mas não tento tirar o amargo do coitado pra tentar comer um dia. Quando o marido faz sua salada de jiló que tem cheiro de delícia, tamanha quantidade de cebola e alho que ele tempera, eu sempre pego metade de um jiló e como, mesmo fazendo careta eu não resisto àquele cheiro de tempero, e a cebola vai crua com crac crac e tudo.

Você já parou pra pensar se alguém ou até você mesma não tenta te sabotar? Querendo te fazer pensar que essa baba, esse amargo ou esse crac crac que só você tem precisa ser retirado? Ou amenizado? Ou modificado?

Pense nisso.

E fique com o meu quiabo e todo seu esplendor babístico:

Quiabo Frito (receita no meio do texto)

Quanto mais baba, melhor!

Quanto mais baba, melhor!

Até domingo com o post 21/24

Deleite-se!

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3 respostas para A analogia do quiabo

  1. Ana disse:

    Eu amo quiabo e não me importo nem um pouco com a sua baba! :) Adorei a analogia. Engraçado porque a gente realmente vive tentando se “consertar” quando seria muito mais fácil simplesmente aceitar como nós somos, né?

    • Exato Ana, quando não somos nós mesmas, tem sempre alguém com um “conselho infalível” pra mudar quem somos.
      Raro ouvir alguém falar que curte quiabo… fico feliz por vc! hahaha

  2. Luciana disse:

    Ah que Post otimo, amei! Mas confesso que nao resisto ao gostinho de quiabo com limão (que por cargas dagua é um agente cortador de baba)! E daí me pus a pensar que nem sempre queremos modificar o quiabo, ou a gente, mas podemos adicionar algo pra tornar mais interessante, pra realçar uma característica que vc muito aprecia (no caso do quiabo, o sabor, mesmo em detrimento da baba). Será?

    Ou to querendo justificar minha intervenção? :)

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