Sintomas de saudade

O título do post de hoje foi surrupiado de uma letra da Marisa Monte. Que aliás eu adoro, tanto a música, quanto a cantora. Então, dá uma espiada no vídeo pra entrar no clima do post de hoje. Saudade.

Oh saudade. Achei que já tinha motivos suficientes pra pronunciar essa palavra. Bem lá atrás quando chorava por horas a fio desde a despedida na rodoviária até uns bons quilômetros depois do primeiro arranque do motor. Bem lá atrás quando me despedia da grande família que ficava a mais de mil quilômetros de São Paulo. Me despedia de férias inesquecíveis, dos montes de primos e amigos de Brasília. Dos avós, dos tios, e de muitas lembranças.

Minha mãe, quando resolveu partir de Brasília para São Paulo, e por lá construir sua família, já nos pariu com uma marca. E essa marca chama pelo nome de saudade. Desde pequena sei o que essa palavra sem tradução significa. E sei que ela faz a gente chorar.

Então que aos 28 anos, como se já não bastasse as marcas da saudade no coração, eu resolvo fazer o mesmo. Partir. Deixando e sentindo saudade. Mais saudade.

Desde 2010 eu sei que a saudade das férias inesquecíveis não chega nem perto do buraco que fica no peito quando se resolve morar longe da família. Só que esse buraco não chega a provocar uma ruptura, se fosse assim, bastaria voltar. Afinal, quem aguentaria viver faltando um pedaço do coração?

O buraco que fica divide o coração de quem mora longe, e essa divisão nunca mais deixará de existir, porque quando o lugar que moramos é bom, não queremos voltar pra cidade natal, e então o coração de quem mora longe sofre de uma enfermidade sem cura. O coração dividido.

Esse coração ama estar perto dos queridos, dos pais, amigos, sobrinhos, das lembranças que a cidade carrega em suas entranhas, das esquinas e ruas cheias de histórias por onde passou. Até ponto de ônibus tem história pra contar.

Só que o coração do agora visitante sente saudade de casa, da cama aconchegante, do banheiro espaçoso, do sol frequente, do convívio só você e seu amor, seu amor e você. Até do tempo seco o coração sente falta…

Sempre que volto de Sampa rola uma certa melancolia. E a potência da tristeza é proporcional a quantidade de dias que por lá fico. Já percebi, viagem rápida de 4 dias, onde só passo o final de semana com a família são facilmente superadas na volta, agora uma viagem um pouco mais longa, 6 dias com direito a feriado prolongado rendem muitos dias de uma pessoa tristonha e quietinha pelos cantos.

Já tive fazes de voltar morrendo de amores por meus sobrinhos e sentir uma falta que chega dói no coração, de achar, ou ter certeza, que estou perdendo fases importantes da vida deles. De achar que serei eternamente pra eles “ah aquela tia que mora longe”. Nos meus pesadelos tenho sequer um nome, sou apenas “aquela tia que mora longe”. E isso dói. Mas na verdade meus sobrinhos são uns fofos, e isso atribuo à família e ao meu irmão, que jamais permitiram me transformar simplesmente “naquela tia que mora longe”. Pra eles eu sou a madrinha, a tia Tati, e que sempre ouve deles “ah tia Tati por que você foi morar tão longe?”. Fofos demais. Sinto um amor por esses garotos que nem sei dizer se tem um tamanho. E semana que vem eles estarão aqui em Goiânia comigo :)

E agora da última vez que voltei de São Paulo, cheguei sentindo melancolia por meus pais. Não sei explicar, mas sabe quando você sente que eles estão envelhecendo? Sabe quando você olha pra eles e de repente se dá conta que eles não serão eternos?

Meus pais são bem jovens até, apenas 56 anos, mas já vi um certo cansaço em seus olhares, uns pesinhos a mais que eu imagino cansar o corpo. Aqueles cabelos brancos que parecem brotar aos montes todos os dias, e as rugas já bem mais aparentes e persistentes.

Sim, eles estão envelhecendo. Eu também na verdade.

Mas ter essa certeza e lembrar daquele coração para sempre dividido também dói.

Então, morar longe é um eterno aprendizado de muita paciência, de fé, de luta, e de esquecer também. Pra quem mora longe não é permitido pensar nos pais todos os dias, pensar em tudo o que se perdeu indo embora, ou pensar que só perdeu indo embora.  É preciso esquecer do lado de lá um pouco e viver a vida de cá, de corpo e mente presentes.

Ainda assim, não tem melhor abraço, melhor beijo, melhor aconchego do que a sensação de voltar, mesmo que por poucos dias. Ali no abraço dá pra sentir em alguns segundos o coração dividido se conectando de novo. Tamanha felicidade por estar de volta.

E a receita de hoje eu tenho certeza que trará boas lembranças a muitas pessoas. Eu já a comi em muitas das minhas férias em Brasília, e tem sabor de saudade.

Pavê de Pêssego

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Ingredientes do Creme: 1 lata de leite condensado – 1 lata de leite comum – 1 colher de sopa de manteiga – 3 gemas – 1 colher de sopa de amido de milho – 1 lata de pêssego em caldas

Ingredientes da cobertura: 3 claras em neve – 2 colheres de sopa de açúcar – 1 lata de creme de leite sem soro

Outros: 1 lata de pêssego em calda (eu usei 1 1/2, exageraaaaada) – 1 pacote (grande) de biscoito champanhe.

Modo de Fazer o creme: em uma panela coloque o leite condensado, a manteiga, o leite (reserve um pouco), o amido de milho dissolvido com leite e as gemas levemente batidas. Cozinhe por aproximadamente 5 minutos (até engrossar), sem parar de mexer. Reserve até esfriar.

Modo de Fazer a cobertura: bata claras em neve. Depois adicione o açúcar aos poucos e com a batedeira ligada (até ficar em ponto de suspiro). Desligue e junte o creme de leite. Misture delicadamente e reserve.

Montagem: separe a calda do pêssego num prato fundo e se quiser acrescente 1 colher de sopa de rum. Separe o refratário que vai montar o pavê. Molhe o biscoito champanhe na calda com rum e vá colocando no refratário até cobrir o fundo todo (se quiser jogue mais um pouco de calda por cima. Eu jogo sempre). Depois acrescente o creme, e por cima pêssegos picados. Faça mais uma camada de biscoito molhado na calda e mais uma de creme. Agora é a hora de colocar a cobertura de clara em neve e finalizar com mais pêssego picado.

Dica: faça o pavê na véspera, porque fica muito mais gostoso bem geladinho. Parece até que fica menos doce. Outra coisa, essa quantidade é típica daquelas travessas de família grande sabe? Aquelas bem lindas da Marinex que sua mãe já deve ter feito doces lindos pra um almoço de domingo.

Oh saudade.

Fonte da receita aqui (fiz a receita adaptando-a).

Até quarta com o post 12/24 (e a metade da maratona… uhuuu).

Deleite-se!

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5 respostas para Sintomas de saudade

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  2. Ana disse:

    Hum… pavê de pêssego! Delícia! Vou anotar a receita pra fazer. Amo pavês!

    E nem comento nada da saudade, Tati. Putz, você falou TUDO! E foi legal ver o teu lado, da família que está longe e você perdendo o crescimento dos seus sobrinhos. Eu sinto o contrário, a culpa por fazer a família lá perder o crescimento das minhas filhas. Mas isso que você disse, da relação ser mais distante, também não aconteceu com a gente. As minhas meninas são super ligadas nos tios e avós e primos. Sempre que estão juntos, é uma farra, não é aquela coisa distante não. É como se nunca tivéssemos saído, morado longe. Isso conforta o coração. Mas a hora de separar de novo dói, dói demais.

    Ah, como sei o que você quer dizer…

    • Suuuper fácil de fazer Ana, e acho que dá pra fazer de diversos sabores também.

      Ah essa coisa de saudade será uma eternidade em nossas vidas, tenho certeza disso. E fico feliz que tenha uma família assim, tão bacana quanto a minha, que parece sempre fazer questão de nos sentir presentes. Isso não tem preço.

      Beijooooo

  3. Luciana disse:

    Hmmmmm! Ha quanto tempo nao faço uma sobremesa dessas, vc me inspirou! Vou fazer nesse fim de semana!

    Tati, eu ja sofri muito mesmo por conta da saudade, mas hoje meu coração se adapta mais rápido. É isso mesmo que vc falou, a solução é viver mais o lado de ca. Eu vivo muito tudo aqui, me entrego de corpo e alma a tudo o que faço, e acho que isso ajuda. Mas nao é o mesmo com as criancas… Ate hoje, mais de um mes depois de voltarmos, o Nic ainda fala muito do Brasil e sente saudades. Isso me parte o coração. Pois uma coisas é fazermos escolhas por nós, outra, por nossos filhos.

    Excelente Post, Tati!

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