Margarida teimosa

Esta obra é um romance. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais, terá sido mera coincidência.

Novembro de 1980

Depois de uma semana deitada a mulher se despede do marido. Numa última espiada pela janela vendo-o partir sente que dali por diante a vida deles nunca mais será a mesma.

Uma forte dor a invade e ela sabe que a hora chegou. E não tem como pedir pro marido voltar. Terá que encarar tudo sozinha.

Sozinha só por alguns instantes. Dali em diante aquela mulher nunca mais estaria sozinha e o rapaz que seria seu eterno namorado vinha ao mundo apenas com a ajuda dela própria. A mãe. Na sala de pré-parto. Sozinhos.

Outubro de 1981

Onze meses e 5 dias depois, a mesma mulher se encontra naquele velho local conhecido. Dessa vez sem repouso forçado e com o marido presente.

A criança, que ela tinha certeza ser uma menina, deu seus primeiros sinais pela madrugada. E já demonstrando seu futuro de menina esfomeada, nasce bem na hora do almoço.

– Pronto, a mulher pensou, agora minha felicidade está completa.

 Setembro de 1983

Em algum lugar onde só a crença de que “existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia**” faz sentido, segue o seguinte diálogo:

– Você tem certeza que fez sua escolha?
– Tenho!
– Mas esse pode não ser o momento certo pra eles.
– Eu farei com que seja!
– Então, te darei o dom da persistência. Alguns chamarão de teimosia. Nem você às vezes irá compreender esse dom, mas ele te fará seguir em frente.

Setembro de 1983 a junho de 1984.

Os tempos são os mais difíceis. A família passa por um aperto financeiro sem precedentes.

Dois filhos pequenos que cresciam como nunca, num cômodo e cozinha dos fundos da casa de uma generosa senhora. Seu marido e filhos adolescentes faziam a alegria dos dois pequeninos…

– Não posso estar grávida, disse a mulher depois dos sintomas já bem conhecidos por ela. Não posso.

E assim seguiu negando que ali em seu ventre uma vida crescia.

E a vida cresceu, como uma semente teimosa de flor que germina e flora nos ambientes mais inusitados e sombrios, que não precisa regar com frequência, bastando esperar seu curso, o cair de folhas secas, que uma bela florada se aproximaria.

19 de junho de 1984.

Pela terceira vez aquela mulher se encontra num hospital. Vai parir seu terceiro filho. Ou filha. Ainda não se sabe, mas a certeza de que é um menino já demonstra que a menina a nascer seria mesmo teimosa.

Mas algo certo aquela mulher já sabia. Dessa vez não seria nada fácil. E não foi. A clareza dos fatos foi como dirigir num dia com neblina, não mostra muita coisa, mas dá um medo danado.

Muita dor aquela mulher sente. A bolsa rompera horas antes do parto e ela teria o que os populares chamam de parto seco, parto difícil. E foi. Muito difícil.

Quando a mulher ouviu o choro daquela menina preta não podia acreditar que um dia havia desejado que ela não fosse virar realidade. Chorou também. E diante de seu terceiro filho se perdoou. Era afinal uma pessoa abençoada. Se orgulhou pela filha teimosa que acabara de parir. E percebeu que flor teimosa era aquela, nasceu menina, contrariando inclusive o sexto sentido dela de mãe.

Ao receber a menina em seus braços mais tarde, pôde notar que o parto difícil a tornara preta naquele primeiro instante, mas agora já estava branca como um clara de ovo, e seus cabelos amarelos como uma gema.

A boneca que em sua infância nunca tivera tão linda e formosa, mas apenas de espiga de milho, estava ali em seus braços. Até as bochechas eram cor de rosa.

Junho de 2013.

– 29 anos daquele parto difícil se passaram, pensou a mulher. 29 anos do dia que enfim tive a certeza de estar completa e descobrir o que faltava na minha vida.

Os primeiros meses da com a chegada da caçula foram bem difíceis, de dureza e nenhuma foto pra provar seu lindo desenvolvimento. Mas na mesma proporção cheios de saúde. A garota era uma verdadeira bezerra e chegou trazendo consigo um lugar para aquela família morar em definitivo. A casa própria chegou no marcante ano de 1984.

Pouco depois de completar um ano deu um grande susto em seus pais. Era arteira que só e subiu onde não devia. Tomou um tombo daqueles e mais de 10 pontos marcariam seu lindo rostinho pra sempre. A criança que todas as garotas mais velhas da vizinhança amavam brincar e fazer de boneca estava agora bem machucada. O susto serviu para aproximar aquela menina teimosa de seu pai, que por algum motivo ela ainda não houvera se apaixonado perdidamente. A partir dali tudo mudaria, e ela se tornaria sua mais perfeita aliada e defensora.

Hoje as marquinhas em seu rosto não passam de arranhados, um charme assim sem explicação daquele rosto de boneca. Ela já não usa franja pra esconder a testa e há anos o cabelo tigela não a define mais. Evita, na medida do possível, a tentação colorida, gordurosa e saborosa que um mundo chamado guloseimas a insiste em perseguir. Mas na verdade, se pudesse, moraria numa casa como a da bruxa dos irmãos João e Maria.

De la pra cá muito se fala dessa garota. Nunca tendo passado despercebida. E com poucas ocasiões que uma nuvem escura pairasse sobre seus cabelos louros. Ela é puro frescor, puro dia ensolarado e brilhante, mas que de vez em quando faz nascer alguns espinhos. Essa é sua sina, sua defesa contra a morte.

Quando casou, testemunhas afirmaram que sua felicidade era tamanha que podiam ver uma luz sobre sua cabeça. Ao lado, o eterno namorado, diversas vezes defendido e adorado por ela, seu pai. Que todos os presentes já sentenciavam: “ele vai chorar”. E chorou. Mas também sorriu. Assim como seus irmãos e sua mãe. E seus queridos amigos.

Como uma flor teimosa ela colore a vida por aí, ora suas folhas secam e morrem, mas sempre dão lugar para uma nova florada colorida e perfumada. E sua persistência é tamanha que incentiva todos a sua volta a fazerem o mesmo.

O que alguns desconhecidos chamam de teimosia, Alguém chamou de persistência. E eu chamo de alegria de viver.

** frase de William Shakespeare

Hoje é aniversário de uma menina espevitada com nome de flor, que vem colorindo nossa vida desde sua chegada.

Deise, além de uma história, um tantinho inventada, eu quero marcar esse dia com meu presente em forma de vídeo. Agora sim, sua vida baseada em fatos reais. Te amo.

Caso encontrem algum problema com o áudio do vídeo, assistam pelo Vimeo, neste link.

Até sexta com o post 6/24.

Deleite-se!

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10 respostas para Margarida teimosa

  1. Ana Paula disse:

    Muitoooooooooo bom Tati, quando lancar seu livro. Vou ter orgulho de dizer, que fazia tempo já lia seus contos….. E não esquece disso, quero o meu autografado! bjs

    • Obrigada Paula!
      Com certeza neste dia vc estará lá na primeira fila, como uma das minhas grandes incentivadoras.
      Te darei TODOS os meus livros com autógrafo, mas quero em troca suas críticas construtivas. Combinado?
      Beijo grande amiga.

  2. Vanessa disse:

    Lindo demais!!!

  3. Livi Souza (Baianos no Polo Norte) disse:

    Emocionante sua homenagem! Parabéns para você e para ela!

  4. helena disse:

    Parabéns, Tati! Gostei muito. Vai pensando no seu próximo livro!!!

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