Um Sonho Realizado

27 de fevereiro de 2010, sábado

Dia 30/30

Nesta manhã de sábado, ao contrário de todas as outras, eu não queria levantar. Olhava pras minhas malas ainda abertas, abarrotadas de roupas, alguns presentes e muitas histórias, e não queria fechá-las.

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Ao descer da escada, rumo ao último banho, me lembrei do tombo que havia tomado alguns dias atrás bem ali… É, exageros à parte não foi bem um tombo, mas um belo de um escorregão.

Muitas casas em Vancouver são totalmente carpetadas (menos cozinha e banheiro, claro!), inclusive corredores e escadas. Nesta casa era assim. Carpete pra todo lado. Cedinho ainda meio sonolenta eu desci as escadas de meias, como sempre fazia, e sei lá como, eu acho que pisei em falso e ploft, derrapei, escorreguei e girei de pé uns bons degraus segurando no corrimão. Parecia que estava treinando pro Cirque du Soleil. E pra não desperdiçar o espetáculo, eu tive plateia. Matthew estava lá e ouviu tudo (casa de madeira é incrivelmente barulhenta). Seus aplausos foram um Are you ok? Quase morri de vergonha! Eu disse que havia escorregado, não sem antes lembrar da lista de 150 verbos que deveria usar, e que sim, estava bem. Corri pro banheiro com minha dignidade e caí no riso.

Agora eu te pergunto. Pra que fui lembrar isso hoje? Bem no post de encerramento?!?! :)

Voltando pra manhã de sábado. Eu tomei meu banho bem cedinho, pois havia marcado com o taxista às dez horas. A casa parecia normal e silenciosa. Subi pra fechar as malas que estavam incrivelmente cheias e pesadas. Eu literalmente deitei em uma delas pra conseguir fechar. Minha mãe me mataria vendo tamanha desorganização. Não sei com vocês, mas comigo é sempre assim, a mala de ida vai toda bonitinha e organizada. Já a de volta parece que foi arrumada minutos antes de sair (foi quase isso). Some-se a isso os três casacos grossos que agora não seriam mais úteis dentro da mala. Brinquedos pros sobrinhos. Roupinhas pra irmã, pai, mãe, namorado, cunhados e minhas (novas e de frio). Materiais escolares, panfletos, et cetera e tal…

Pânico de ultrapassar os 32 quilos. Ufa, Lori me emprestou uma balança. Não, não tinham mais que 32 quilos (mas uma delas estava quase lá). Lembrei que ainda na chegada, uma delas quebrou as rodinhas, e era a bendita de quase 32 quilos…

É! Seria um sábado animado.

Comecei a ouvir uns barulhos vindos da cozinha e desci pra tomar café. E vocês acreditam que o fofo do meu host preparou um café de domingo especial pra mim? E no sábado? Todos levantaram pra tomar café comigo, claro! Eles, assim como eu, eram loucos por bacon, ovos, panquecas e maple syrup. Trocamos as últimas conversas, tiramos a foto oficial da visita e um milagre aconteceu…

Samy falou comigo. Finalmente ela me deixou conversar com ela. Dei uns beijinhos e apertos naquela Pocahontas delicinha e tirei duas fotos super fofas. Ah Samy, porque demorou tanto? Foi engraçado, porque ela saiu correndo pela casa dizendo “Tati blah blah blah” dando risada (não deu pra ouvir), mas quando cheguei na sala ela estava mostrando as bochechas pros irmãos. Me despedi deles por lá, desejei sorte, chamei a Samy de linda em português, expliquei o que era e fui. Ela ficou rindo.

A Bruna tinha uma teoria de que ela não falava comigo, porque já estava acostumada com pessoas chegando e logo depois partindo, então era meio que uma barreira pra não se apegar. Como ela só tinha uns 5 anos, eu acho que não era isso. Eu pensava que ela devia achar estranho uma mulher daquele tamanho que não sabia falar direito (pra criança todo adulto é velho). Crianças são assim né? Literais. Com os pais falando esquisito ela já estava acostumada e corrigia, mas com os irmãos e qualquer pessoa alfabetizada no Canadá era diferente, ela conversava tranquilamente. Eu não tinha inglês fluente, e nem tão bom assim, então acho que ela estranhava. Aceito teorias. Me diga, o que vocês acham? Só não me falem que eu assustava a pobre menina. Eu adoro criança.

Eu não esperava, mas ganhei um presentinho dos meus hosts (um livro sobre turismo em British Columbia e um vidrinho lindo em forma de maple leaf contendo maple syrup). Ah que tudo! E Romy ainda me disse que quando acabasse a calda eu poderia preencher o vidrinho com uma água colorida que ficaria bem bacana e serviria de enfeite.

Eu tenho esse vidrinho até hoje na minha estante.

Vale lembrar que quando você for fazer um intercâmbio é de bom tom levar um mimo ao pessoal da casa que irá te hospedar. Não precisa ser nada caro, nem um pra cada pessoa da família. Leve algo que remeta ao Brasil como coisas da Natura (eu levei isso), Havaianas, algum artesanato, livros sobre turismo no Brasil (em inglês), CD e DVD de MPB. Enfim, ideais não faltam.

Neste dia eu saí pela porta da frente (por onde tinha chegado). Parece que aquela porta só era aberta em momentos solenes mesmo. Troquei umas palavras com meus hosts, agradeci imensamente todo o cuidado que tiveram comigo, as comidas gostosas e tudo mais. Eles me disseram pra voltar sempre que quisesse e que os procurasse. E que se caso eu quisesse morar um dia no Canadá seria muito bem-vinda (até aqui eu não entendia esses convites de morar por lá, não sabia que o Canadá tinha um programa legal de imigração).

O taxista chegou. Romy me ajudou com as malas. Meus olhos se encheram de lágrimas. Dei aquele abraço apertado nos dois e fui embora. Senti uma vibração muito boa deles.

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Já dentro do táxi dei uma última olhada naquela casa e mais lágrimas brotaram dos olhos. O taxista era gente boa e ao me ver chorar começou a puxar papo. Era um choro baixinho, mas deve ter despertado a curiosidade dele. Troquei algumas palavras, ele elogiou meu inglês, mas enquanto seguia rumo ao aeroporto eu só queria ficar vidrada naquela cidade cativante. Meio que me despedindo de cada curva. Incrível como quando eu chego num lugar pela primeira vez tudo parece diferente e estranho, mas ao ir embora, tudo parece um pouco meu. Dando uma gostosa sensação de pertencimento. Era uma manhã cinza e preguiçosa. Parecia que somente eu tinha resolvido ir embora. E apesar do choro, me senti feliz e realizada, do fundo do coração.

No aeroporto haviam umas pessoas auxiliando no check-in. Um senhor de idade avançada, muito simpático por sinal, fez algum comentário sobre o fato da minha mala ser enorme e de que não passaria na estreita passagem, comentou algo do peso e eu o relembrei do acordo entre Air Canada e Brasil. Ele pesou, mediu e liberou. Ufa.

Fiquei de bobeira no aeroporto, já livre das malas. Como era um voo doméstico, uma vez que ainda iria pra Toronto fazer a conexão, eu não tinha horas de aguardo, mas ainda assim deu tempo de dar um pulo na área do Skytrain (Canada Line). Fiquei curiosa porque me disseram que era uma estação recém-inaugurada por causa dos jogos. Fui lá xeretar e constatar como o Brasil é um país atrasado. Uma cidade enorme como São Paulo, com milhões e milhões de habitantes a mais que Vancouver, não tem uma mísera estação de metrô dentro de nenhum aeroporto.

Liguei pra casa pra avisar do retorno e acabar com os créditos do cartão telefônico. Liguei pro namorado e ele veio com um papo de que um amigo nosso tinha feito uma proposta pra gente, mas que contaria no Brasil. Ahã. Até parece que eu esperaria pra saber do que se tratava apenas no Brasil. Não Sr., me conta agora, eu disse. E assim, os créditos acabaram…

Não pensei duas vezes e saquei meu cartão de crédito pra fazer a tal ligação internacional (depois vi o olho da cara que essa ligação me custou). O Le não teria escapatória. Teria que me contar. E ele contou que a proposta envolvia uma grande mudança de estado e que se aceitássemos moraríamos juntos. Sinceramente nem dei trela, eu já tinha uma ótima proposta de trabalho em São Paulo, e não mudaria. Não falei isso pra ele, mas o meu “a gente conversa amanhã” deve ter dado um sinal de que não havia gostado da proposta. Não naquele momento. E por que estou contando isso pra vocês? Um dia eu explico.

Saí pra tomar um ar fresco, leia-se, gelado. Tirei umas fotos. Olhei bem em volta do aeroporto. Lembrei-me da minha chegada e do pânico pra sair. Fechei os olhos mentalizando em alguns segundos muito do que havia vivido durante aquele mês. Dei uma boa inspirada no ar gelado de Vancouver e entrei. Até breve cidade linda.

Ao entrar no avião sentido Toronto eu chorei. Assim como na chegada, aquele choro de alívio, de conquista, de que tudo tinha dado certo, só que passado rápido demais. Eu sentei bem próxima da primeira classe, então vi praticamente todos os passageiros entrarem no avião. Os jovenzinhos choravam desconsolados. E eu podia imaginar o porquê. É difícil dar adeus pra um lugar que te acolhe tão bem, com pessoas simpáticas, bondosas, de uma cidade segura, limpa e organizada, onde tudo ali parece ser rico e disponível pra todos. E não adianta discordar, mas todo residente temporário vê a cidade assim, apenas pelo lado do que deu certo. O lado do sonho realizado.

Se eu pudesse ter consciência de quem eu era ali naquele instante eu me falaria um monte de coisas que só vejo agora. Eu diria que nunca mais seria a mesma Tati. Que aquela experiência transformaria minha maneira de pensar no mundo. Que ela abriria meus horizontes mais ainda do que eles sempre foram abertos ao novo, me mostrando que não há limites pra sonhar. Que o inglês não seria nenhum bicho de sete cabeças e que seria infinitamente mais fácil aprender a falar, porque o resto vem com o tempo como acontece com as crianças. Que as pessoas de olhos puxados não seriam todas do Japão ou China, e principalmente, não seriam todas mau-caráter. Que investir em experiências poderia ter um custo alto, mas um retorno certo. Um retorno pra vida toda. Que ninguém passaria imune por uma experiência de intercâmbio, principalmente se soubesse aproveitá-la ao máximo.

Eu desejo que todas as pessoas possam fazer o mesmo, ao menos uma vez na vida, sair de seus quadrados de vida tranquila, e fazer algo realmente transformador, pois não precisam esperar terceiros pra realizar seus sonhos. Se tem vontade vá e faça. De repente essa ousadia é o que falta pra você dar um sacode na vida, rearranjar coisas e recomeçar. Não tenha medo de se jogar. Lembre-se daquela Tati deprimida antes de decidir viajar, que não encontrava saída. Depois veio a Tati ainda receosa quando pisou no Canadá pela primeira vez, cheia de incertezas, mas com grandes vontades. E a Tati de agora, aguardando em Toronto, que 30 dias depois andava pra cá e pra lá pedindo informações, fazendo pedido de refeições, jogando conversa fora com desconhecidos no aeroporto e se sentindo a pessoa mais realizada e feliz do mundo.

O vídeo a seguir, de apenas três minutos, resume em imagens essa jornada de um mês em Vancouver. Quero aproveitar e agradecer a todos que me acompanharam durante essa jornada de contar em 2013, o que aconteceu há três anos. E dizer para aqueles que chegarem depois aqui nessa projeto, enjoy it, espero que gostem. E se todos se sentirem a vontade, deixem comentários. Adoro receber e respondê-los.

E plagiando o final do livro Comer, Rezar, Amar, vou aqui escolher uma palavra que define a saga, tanto de 2010, quanto de 2013:

Awesome!

Fim.

PS: se não entender muito bem esse post, comece lendo pelo dia 29/01 ”Realizando um Sonho” e vem comigo por 30 dias, terminando com o de hoje.
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10 respostas para Um Sonho Realizado

  1. Bruna disse:

    Tati, sem palavras!!
    Delícia de ver alguém traduzindo em palavras tantas coisas que eu senti estando lá.
    Delícia de ver como você se transformou com a viagem, de ver o quanto ela fez bem pra você.
    Delícia chorar de felicidade assistindo seu videozinho e lembrando de tantas coisas.
    Espero poder ter a chance de estar outra vez em Van um dia.
    Quem sabe com os nossos Le’s? rsrsrs
    Beijocas amiga, até a próxima!!! (Acredito fortemente que teremos outra história de viagem pra contar. Nunca esquci da história das duas senhorias que sempre viajavam juntas, você quem me contou. Lembra?)

    • Obrigada por me acompanhar, de novo, diga-se de passagem. Foi maravilho relembrar essas coisas, e agora poder ler quando bater saudade ou quando quiser mostrar pra alguém como foi.
      E também acho que teremos novas aventuras juntas, só não sei se agora ou se quando ficarmos velhinhas e aposentadas… eu tô dentro de ambas! rsrs

      Bjuuuuuuuuu

  2. Luci Albarrans disse:

    Que delicia de leitura Tati, viajei com vc para Vancouver. Continuo achando que vc deveria escrever um livro. Muito bem escrito e descrito suas aventuras. Parabéns, muito legal. Bjs

    • Obrigada Luci! Fico feliz que tenha gostado. Foi algo muito gostoso de fazer. Adora as lembranças nunca mais serão esquecidas :)
      Quem sabe não vire um livro mesmo. Sonhar é comigo! rs
      Bjo grande!

  3. Talita disse:

    Ameeeeiiii Tati, muito bom reviver tudo isso, sensação maravilhosa… Parabéns pela sua dedicação em escrever todos os dias, continue com esses textos ótimos que vc sabe mto bem fazê-los. Miss u my dear! bjos

    • Obrigada bichinha!!!
      Fico feliz que tenha gostado e mais ainda por ter revivido comigo esse período que passamos juntas. Muito curto por sinal.
      Estou lendo bastante sobre escrita e quero melhorar. Amei ficar imersa neste mês com textos tão gostosos de falar.
      Venha pra Goiânia me ver vai? Aí a gente mata a saudade e fofoca bastante.
      Kisses

  4. Luciana disse:

    Belissimo post pra terminar! Amei te acompanhar na sua aventura, obrigada, Tati! Lindas fotos e perfeita descrição dos seus humores, olhares, sentimentos, inseguranças, avanços e das suas relações com tudo e todos. Linda família! E que bom que a pocahontas falou com vc! Fiquei vibrando!

    Beijos!!!

    • Muito obrigada Lu. Vindo de alguém tão criativa e talentosa como vc eu aceito de bom grado o elogio.
      Sabe que eu terminei os posts orgulhosa de ter colocado tudo isso em palavras?
      E estou interpretando essa sensação como algo que vale a pena investir pro futuro.
      Escrever durante esse mês me deu um imenso prazer. Algo que há algum tempo não sinto pelo aspecto profissional.
      Estou com a cabeça cheia de ideias… aos poucos vou arrumando elas, mas espero que nasçam bons frutos.
      E continue por aqui. Mesmo sem te conhecer eu gosto muito de você. Às vezes conto algo que li seu, no blog e tal pro Le como se fosse uma amiga íntima! rsrs
      Beijo grande!!!

  5. Eva disse:

    Oi Tati, que lindo post!
    Mas não subestime as crianças. Elas são muito inteligentes e provavelmente essa com a qual você conviveu percebia, sim, que pessoas entravam e saíam da casa dela, sem permanecer. E ela deve ter criado uma pequena barreira para não se apegar sempre.
    Crianças são muito intuitivas, observadoras e percebem coisas mais facilmente que adultos. Bobos somos nós hahaha. :)

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