Pilipinas X Bancouber

22 de fevereiro de 2010, segunda-feira

Dia 25/30

Quando eu fechei o intercâmbio com a Experimento, preenchi um formulário com diversas informações a meu respeito como: gostos, hobbies e hábitos. Por outro lado fiz escolhas que ajudariam no direcionamento do perfil da minha host family. Eu escolhi algo mais ou menos assim: poderia haver crianças e adolescentes e outros estrangeiros; cigarro de jeito nenhum, e se possível, sem animais de estimação.

 Não tenho absolutamente nada contra animais, mas eu sei que alguns são extremamente temperamentais e agressivos. Isso atrapalharia meu convívio na casa, então preferi não arriscar.

Pra vocês verem que não tenho nada contra bichinhos.

Pra vocês verem que não tenho nada contra bichinhos.

Na semana da viagem a expectativa em torno da família aumentou consideravelmente, que é quando a agência mandaria os dados. O endereço inclusive. Eu recebi um email com o nome de todos eles, idade, a foto da fachada da casa e algumas informações sobre os interesses da família. Quando li Romy, Lori, Jessica, Matthew e Samantha, fiquei feliz em ter caído numa típica família canadense. Teriam olhos azuis e cabelos loiros? Falariam inglês muito depressa? Gostariam de mim? Fiquei especialmente feliz por terem criança (5 anos eu acho). Não recebi foto neste email.

Já em Vancouver tomei um susto. De onde vinham aqueles olhos puxados e aquela pele morena? Que canadenses diferentes, eu pensei. Quando questionei a origem da família, eles me disseram, P I L I P I N A S!

– E eu pensei, Pili o quê? Onde diabos fica isso?

Eles me explicaram que se tratava de um lugar com diversas ilhas na Ásia, bastante quente e pobre. E eu só pensava que mal tinha ouvido falar daquele lugar, tampouco imaginava que um dia conheceria pessoas das Filipinas.

O som de “P” é a língua materna falando mais alto em seu inglês carregado de sotaque. Sendo assim, neste mês eu aprendi um pouco  mais sobre as “Pilipinas”.

E falando em idioma, os queridos filipinos têm uma maneira toda especial de chamar Vancouver de B A N C O U B E R, assim mesmo com “B”. Na primeira vez achei que tinha escutado demais. Mas depois percebi que era exatamente assim que eles chamavam a cidade. Era Bancouber pra lá, Bancouber pra cá!

Num belo dia eu estava em casa, e resolvi assistir um pouco de TV com eles. Estava passando um jogo daqueles que a pessoa gira a roleta e sugere uma letra pra tentar adivinhar a palavra escondida. E o programa era filipino. Tomei um susto quando apareceu uma palavra muito parecida com o português. Não vou lembrar qual, mas perguntei se o significado era o que eu imaginava e eles confirmaram. Foi aí que me explicaram que foram colonizados (ou algo assim) pela Espanha, então a língua deles é parecida com o espanhol. Sendo assim, ta explicado o motivo do som de “v” virar “b”.

De vez em quando eu os ouvia conversando em filipino (é essa a língua gente?), e sinceramente não entendia patavina. Então, se tem alguma relação com o espanhol, deve ser a palavra escrita apenas.

E apesar da origem filipina dos pais, os filhos são nascidos no Canadá e sem qualquer vestígio de sotaque. Eles moram em Vancouver há cerca de 30 anos. A história da Lori eu não conheci, mas a do Romy começou quando o pai dele ficou gravemente doente a família gastou todas as economias com médicos, internações e remédios. Perderam absolutamente tudo, porque não havia saúde pública nas Filipinas. Quando o pai morreu, a mãe pegou todos os filhos pequenos e seguiu para o Canadá. E lá se estabeleceram.

Vancouver_Day25

Pra falar a verdade, eu quase não convivi com Lori. Ela tinha uma rotina bem diferente na casa. Quase todas as manhãs quando eu saía pra escola cruzava com ela chegando. E quando chegava da escola à noite, ela estava sempre dormindo no sofá. Já fazia parte da decoração sua manta sempre por ali. Depois de uma semana eu soube que ela trabalhava nos correios, durante o turno da noite.

Assim, quem fazia o jantar em casa era o Romy. E posso te garantir que era uma delícia de comida. Nada muito diferente do Brasil, mas com um detalhe que deixaria os fãs de arroz com feijão possessos. Sim, ele fazia aquele típico arroz japonês, grudentinho e quase sem sal. Eu gosto pra falar a verdade. E nunca havia feijão.

O tempo que fiquei lá não jantei nenhuma vez sequer carne vermelha. Eles priorizavam frango, peixes, frutos do mar e verduras. Vou te falar que não sou uma grande fã de frango, mas não cheguei a enjoar, comia numa boa. Acho que era a fome X grana curta. Não tinha que ter muita frescura né?

Na maioria das vezes eu tive sucesso com as comidas, tirando o dia que se esqueceram de mim, claro! E um outro que ele fez uma comida típica das Filipinas que eu O D I E I! Era um macarrão do tipo miojo (detesto com todas as minhas forças), com molho de peixe e que se comia gelado.

Pausa pra chorar.

Eu nunca rejeitava nada que eles faziam e sou muito boa de garfo. Como de tudo, e lá não era diferente. Até esse macarrão gelado eu comi, mas bem pouco, e eles já sabiam que eu era boca nervosa, então estranharam. Não tive coragem de dizer que não tinha gostado. Só comentei algo sobre ser uma comida bem diferente.

No outro dia a Lori estava sozinha comigo e disse algo como: “eu falei pro Romy esquentar a sua parte, que você ia estranhar comer daquele jeito.”

Por outro lado, eu gostava bastante de um empanado de peixe que sempre rolava de quinta-feira (dia que a Lori “cozinhava”). Curtia também um molho amarelo, meio azedinho, meio docinho, que eles serviam junto com a salada. Pensando agora, como eu devia ter trazido aquele super tubo pro Brasil. Aliás, eles sempre faziam bastante salada e todos comiam. Romy comentou que no verão ele gostava de fazer churrasco de salmão. Fiquei imaginando que delícia experimentar.

DSC01501

Muitos foram os papos nesta mesa.

Muitos foram os papos nesta mesa.

Outra coisa interessante sobre costumes, eles comiam de garfo e colher. E eu entrava na dança. Certa vez me perguntaram se no Brasil era assim, e quando eu disse que não, eles falaram que eu poderia comer de garfo e faca se quisesse. Eu, na verdade, adorava sair do quadrado um pouco, então seguia como eles. Por alguns dias eu era quase uma filipina, ops, pilipina.

E a revelação mais surpreendente é que a comida que mais me agradou foi uma sopa!

– O quê? A Tati? Praticamente uma Mafalda que “odeia sopa”?

Sim! Apesar do verdadeiro asco que tenho por caldinho aguado, essa sopa do Romy (aguada por sinal), era cheia de sabor. Levava uma verdura chinesa super picante, que deixava o sabor espetacular. Nossa, eu salivo só de pensar. Que delícia de sopa! E eu acho que deve ser algo único, porque ele fez apenas uma vez, e antes de servir fez uma boa propaganda. Se alguém souber o nome dessa verdura picante, por favor, me passe. Quem sabe acho no Brasil!

Eu considero que minha experiência com a família foi muito boa e cheia de sorte. Conheci colegas na escola que eram tratados bem friamente e não podiam conviver com a família. Alguns que dormiam no porão (tem porão no Canadá que é melhor que muita casa no Brasil, heim!), porém não podiam frequentar as áreas da casa principal, nem sentar à mesa com as pessoas. Outros ainda comentaram que os próprios host que serviam seus pratos, já dando a entender que não poderiam repetir a refeição. Por outro lado conheci pessoas, que assim como eu, foram muito bem tratadas, fazendo-as participar da família, convidando pra passeios e programas juntos.

Tenho certeza que a grande maioria das experiências é positiva. A única coisa que eu poderia reclamar foi do descaso com relação ao aquecedor, mas que foi resolvido, e também do fato de não terem outro aluno estrangeiro pra eu trocar experiências, mas isso não é culpa deles.

***************

Neste dia eu não fiz grande coisa. Dei uma passada no shopping Metrotown pela manhã (matei uma aulinha) e a tarde fui furar mais um pouco da Granville. Como tirei poucas fotos resolvi colocar também algumas belezuras que ficaram de fora em outros posts. E a foto da família vai entrar especialmente dia 27/02 com minha partida pro Brasil. Falta pouco.

Vou criar um movimento: Fechem os milhares de Subway de Goiânia e transformem todos em KFC!

Vou criar um movimento: Fechem os milhares de Subway de Goiânia e transformem todos em KFC! (fotos de 22/02/2010)

Downtown bombando e eu lá deixando as marcas dos meus tênis, talvez pela centésima vez.

Downtown bombando e eu lá deixando as marcas dos meus tênis, talvez pela centésima vez. (fotos de 22/02/2010)

Continua…

PS: se não entender muito bem esse post, comece lendo pelo dia 29/01 ”Realizando um Sonho” e vem comigo pelos próximos dias.
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4 respostas para Pilipinas X Bancouber

  1. Luciana disse:

    Tati,

    Imagino que deve ter sido um pouco frustrante ficar com nao nativos, pelo simples fato de vc estar lá pra aprender ingles, treinar o acento, o ouvido. Nada contra outros acentos, ate porque a gente tambem tem, mas é meio chato nao se poder confiar no que se ouve, ne?

    Ja eu, fiquei com uma família nativa quando fui pra NZ. Falavam um ingles impecável, mas infelizmente tinham o rei na barriga e eram bastante preconceituosos – especialmente com brasileiros. Faziam de tudo pra me minimizar, atacar minha cultura, principalmente na frente de outros estudantes na casa e eu, como tinha um ingles bem fraco, nao conseguia me defender direito. Foi muito, muito chato. Me lembro de me sentir muito sozinha, mesmo qdo a casa estava cheia. Ruim essa sensação, ne?

    Mas enfim… Por isso, eu passava a maior parte do tempo longe da casa. Chegava o mais tarde possível e aí sim, aproveitei bastante.

    Cada um tem uma experiência pra contar qdo fazemos intercâmbio. Eu dei um azar danado com minha família, mas NZ continua sendo um dos países mais lindos e espetaculares do mundo na minha opinião. Se algum dia vc se animar com a distancia, vale muito a pena tambem! E nem precisa de visto. :)

    Agora, a simpatia dos canadenses é imbativel, viu? E os parques de Vancouver tambem! :)

    Beijos!

    • Tem razão Lu, o “acento” deles é terrível, mas ao mesmo tempo é fácil perceber que quase todo mundo em Vancouver tem algum sotaque marcante.
      Nossa, fico chateada por essa sua experiência na NZ. Ainda bem que vc é uma pessoa que sacode a poeira e tirou de letra.
      Sobre conhecer eu tenho vontade mesmo, aliás se eu for colocar em prática todos os lugares que gostaria de conhecer, não sobrariam anos até eu completar uns 100!! rsrs. Uma amiga morou quase 2 anos na Austrália e ela fala muito bem na NZ, sobre a beleza.

      Eu amo a simpatia dos canadenses. Foi o que me cativou por aí. Me sentia em casa sempre que puxava papo com alguém.

      Beijoooo

  2. Bruna disse:

    Ai Tati, esses seus textos e fotos tem o poder de me transportar de volta pra Van em questão de segundos. Conforme leio, sinto o cheiro da cidade, o vento gelado enquanto o corpo sentia calor por andar a Granville inteira, o clima da cidade.. Tudo! Até a foto da cozinha da sua casa, e os comentários quanto a hospitalidade dos demais intercambistas em relação a sua, me fez lembrar de momentos meus em casa. Acho que você deu sorte na comida, apesar de alguns episódios esquisitos, né?!
    Seu post de hoje, me fez lembrar do dia que fomos para o outlet lá longe e cheguei em casa super tarde porque esperei muito tempo pelo ônibus, subi pra dormir pisando na pontinha dos dedos pra não incomodar ninguém e no dia seguinte, a host mom me disse que tinha ficado preocupada e dormiu a noite toda sentada no sofá da sala me esperando chegar, enquanto que eu, já estava na cama ha um bom tempo. Tadinha! Até reclamou de uma dorzinha na coluna dando risada.. Ela era boazinha, não queria me dar bronca, mas queria me alertar da mancada que eu dei e do quanto deixei ela preocupada, afinal, eu era menor de idade né!

    • Oh Bruna, coitadinha da sua host mom! hahaha. O povo lá tem essa característica né? Não se meterem na vida dos outros.

      E que bom que se identifica com os textos. Eu adoro suas respostas, pq elas sempre complementam o que escrevo. Dá até vontade de escrever um pouco mais com algo que vc comenta. rsrsrs

      Ah menina estou entrando na reta final e acredita que o apertinho no coração vem junto também?

      Beijoooo

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