Os verdadeiros canadenses

18 de fevereiro de 2010, quinta-feira

Dia 21/30 (contagem regressiva)

Com certeza acordei revigorada do passeio de ontem. Dia lindo muito bem aproveitado.

Flores em pleno inverno.

Flores em pleno inverno.

Durante a aula de public speaking (aula que matei ontem lembram?), a professora Karine se mostrou preocupada com minha ausência, afinal eu era super pontual e assídua nas aulas. Eu falei a verdade, disse que estava meio pra baixo, porque já sentia que a viagem chegava em sua reta final e que o dia estava tão lindo que eu quis aproveitar.

Ela foi super compreensiva. Me disse pra não ficar chateada e que eu aproveitasse da melhor forma possível sem perder tempo com tristeza, afinal aqueles 10 dias passariam muito rápido. Disse também que ficou preocupada, pois eu poderia estar doente.

Eu cheguei em Vancouver numa época que a gripe A (H1N1) estava bombando mundo afora. E se no Brasil todos estavam preocupados, la no Canadá foi pior ainda, já que recebem pessoas do mundo todo. Não sei se é impressão minha, mas senti la, e já havia percebido em filmes e seriados, que eles têm uma preocupação grande com gripe, a temida flu. Todos os banheiros da escola e também de shopping, aeroporto, café e etc, tinham la suas plaquinhas explicando o jeito correto de lavar as mãos e recipientes com álcool em gel espalhados por todo canto.

Lembro de termos discutido em sala de aula sobre saúde e a Soy, uma garota da Coréia, ter dito que teve a gripe A, assim como várias pessoas da família dela. Só do jeito dela contar se via que era algo bem ruim.

Mas não é de doença que quero falar.

Comentei dessa foto em outro post (bebê dentro do carrinho no ônibus). E olha os olhos...

Comentei dessa foto em outro post (bebê dentro do carrinho no ônibus). E olha os olhos…

Durante essas aulas de “falar em público” eu escutei muito sobre diferentes culturas. Karine estimulava que abordássemos em nossas apresentações coisas bem pessoais e próprias de cada cultura. Nesta aula não faltavam opções de países: Brasil, Arábia Saudita, Suíça (italiana e alemã), Japão, Coréia, China e Taiwan completavam o grupo.

Aprendi algumas coisas interessantes. Os homens chineses se abraçam bastante, mas não serão bem vistos fazendo o mesmo com as mulheres. Aliás, o Jay era uma figura de chinês, sempre simpático, rendia boas risadas na aula; Miwa do Japão, que já estava há bastante tempo em Vancouver, disse que em determinado período de férias das aulas, saiu em viagem para tentar ver a aurora boreal. Lembro do jeitinho dela dizendo aurora boreal de uma maneira engraçada. Ela tinha um inglês muito bom, mas de vez em quando era traída pelo forte sotaque. Mas descreveu a aurora de uma forma tão bonita que deixou a todos com vontade de tentar a sorte também. Ela era um amor; Abdul da Arábia Saudita certa vez contou como eram os casamentos por lá. Longos e caríssimos. Disse também que eram raras as mulheres que podiam dirigir seus próprios carros, e que muitas delas não trabalhavam, pra cuidar de seus maridos e filhos; As meninas coreanas são extremamente doces e românticas, elas amam as comédias românticas americanas. Tanto que durante uma apresentação sobre filmes/livros/seriados, três delas escolheram falar do filme “PS, eu te amo”.

Nessa jornada de um mês percebi que eram pouquíssimas as pessoas que iam pra passar apenas um mês, e a grande maioria estava entre os brasileiros. Foi quando conheci o Daisuke do Japão que estava na mesma situação que eu, passaria apenas um mês, mas tudo seria pago pela empresa que ele trabalhava.

E se encontrar alguém que já trabalhava era raro, imagina encontrar quem estivesse bancando seus próprios estudos. Situação rara.

E de tanto falar de nossa vida, eles todos sabiam que eu estava ali me bancando e sabiam também que eu voltaria pro Brasil pra trabalhar numa importante empresa brasileira. Que durante o processo seletivo eles sabiam que eu viajaria, mas toparam me esperar voltar. Ouvi em diversas ocasiões e pessoas dessa aula: “I’m proud of you Tati“.

– Como pessoas que nunca me viram na vida poderiam estar orgulhosas de mim?

– E como uma experiência dessa não muda nossa maneira de enxergar o mundo?

I’m proud of you guys!

Será que eles diriam ter orgulho de mim depois desse tombo nada a ver?

Será que eles diriam ter orgulho de mim depois desse tombo nada a ver?

Karine sempre me dizia que eu era confident, segura, e eu sentia que ela estava sendo bastante sincera. Eu acho que nutríamos um certo orgulho uma pela outra. E como eu provavelmente era a mais velha da turma, ela sempre fazia questão de ouvir minhas opiniões. E se eu estivesse especialmente calada ela já vinha me estimular. Ela era doida de pedra. Aliás, porque todo professor de inglês parece ser meio maluco? Ela estimulava bastante nossa criatividade e toda aula contava uma piadinha.

Em suas apresentações tínhamos que levar um cartaz, ou colagens, música e interagir ao máximo com os colegas. Sempre começar nos apresentando, não colocar as mãos nos bolsos e terminar sempre perguntando se alguém tinha dúvidas ou comentários. E era obrigatório todos terem dúvidas.

Eu tenho aqui comigo várias anotações, como os nomes dos colegas que citei antes, e também rascunhos das minhas apresentações. Por exemplo, falei do livro Comer, Rezar, Amar. Falei de uma experiência quando criança no interior de Goiás, quando uma cobra apareceu enquanto eu tomava banho num açude. Mas a apresentação mais aplaudida foi uma sobre “my cup of tea“, expressão que significa “algo que você ama fazer”. Eu contei do meu amor por escrever e que sonhava um dia ser escritora.

– Durante uma aula da Karine algo que ela disse ficou marcado…

No início da minha saga vocês acompanharam algumas ironias que usei sobre Vancouver ser cheia de “china” né? De forma nenhuma quero que pensem que estou sendo preconceituosa ou racista, mas sinceramente pra mim, antes de viajar, bastava ter olho puxado que eu chamava de “china” ou “japa”. E infelizmente os chineses nem sempre são vistos com bons olhos em São Paulo (minha referência), por isso, não vou mentir que me assustei com essa primeira impressão em Vancouver.

Me assustei também ao encontrar galinhas bem na calçada. Coisas dos asiáticos?

Me assustei também ao encontrar galinhas bem na calçada. Coisas dos asiáticos?

Acho que por causa dessa mesma impressão eu sentia em algumas pessoas, principalmente brasileiros, um certo desapontamento por não estarem vivendo numa residência “canadense de verdade”. Como se pelo fato das pessoas serem de origens diversas, a grande maioria asiática, os descredenciasse de serem canadenses, mesmo sendo imigrantes. Por outro lado, aqueles que viviam com uma família “canadense de verdade”, sentiam-se super orgulhosos. Nessas horas eu sempre me perguntava, “canadense de verdade” seriam todas as pessoas que não tivessem os olhos puxados? Ou a pele super morena indicando que eram indianas? Não sei ao certo se todos buscaram as reais referências das família que juntos viveram por meses ou simplesmente se sentiam reconfortados por estarem dentro de uma família de pessoas brancas, com cabelos loiros e olhos azuis.

E a lição que a Karine nos deixou durante uma aula diz respeito aos imigrantes, que eles fazem parte da história do Canadá. Que a cara do país é essa, pessoas com traços asiáticos, descendentes de indiano, italianos (como ela), árabes, brasileiros, e de tudo quanto é canto do mundo. Que o Canadá só é o que representa hoje, porque foi povoado em grande parte por estrangeiros, e eles assim, são o Canadá. Achei muito bonito saber que os canadenses em si, assim como ela que poderia ser apontada como uma “canadense de verdade”, pensem dessa maneira, respeitando as escolhas do Canadá como país. Porque na minha opinião, os meus “irmãos” canadenses, aqueles de olhos puxados, filhos dos meus “pais” filipinos, sejam menos canadenses por conta de sua origem.

Esse lance multicultural de Vancouver me encantou totalmente. É uma mistura gostosa de ver, eles tentam manter suas tradições, comunidades e língua materna, e parecem não ser excluídos por conta disso. O Canadá é um país que respeita muito a diversidade cultural.

Então, ao invés de ter pensamentos preconceituosos e excludentes, o Canadá me deu a chance de experimentar o que essa mistura de cultura traz de melhor, como as comidas deliciosas e as conversas de Skytrain. E de passar a ver que os olhos puxados não se resumem a habitantes da China e do Japão, mas também coreanos, tailandeses, filipinos, indonésios, taiwaneses e vários outros, que você só terá a chance de presenciar num país multicultural que se orgulha dessa condição.

Continua…

PS: não tirei fotos neste dia 18, então escolhi algumas pérolas da minha passagem por Vancouver de outros dias.

Go Canada Go!

Go Canada Go!

PS2: se não entender muito bem esse post, comece lendo pelo dia 29/01 ”Realizando um Sonho” e vem comigo pelos próximos dias.
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2 respostas para Os verdadeiros canadenses

  1. Bruna disse:

    Tem razão, amiga.
    Canadá foi uma grande lição cultural, foi um tapa na cara pro meu preconceito.
    A começar pelos meus próprios hots, que eram filipinos.
    E de início, isso tinha sido uma baita decepção. Saber que eu não ficaria com loirinhos de olhos azuis já me fazia pensar que por algum motivo a exeriencia poderia não ser tão canadense assim, mas depois de toda a boa recepção, que faziam com que eu me sentisse parte daquilo, mesmo com tão pouco tempo ali eu pude perceber o quanto tinha sido injusta, desdenhando os dos olhinhos puxados.
    Que injustiça seria da minha parte, desejar um bom acolhimento e não acolher à eles também, não respeitá-los como canadenses oficiais.
    E por incrível que pareça, essa questão multicultural do Canadá foi um tipo de coisa que no fim das contas, me fez sentir orgulho por ter feito parte do dia a dia de um povo tão humilde e que sabe viver bem com todos, sem preconceitos.
    Foram poucos lugares do mundo que viajei. Mas, sem dúvida o Canadá habita as melhores pessoas desse mundo, ou pelo menos em relação aos pedaços do mundo que já visitei.
    Acho que foi como acreditar que existe sim a possibilidade de um mundo com pessoas melhores. Ah, minha admiração por esse povo é eterna!

    • Esse tipo de experiência é pra marcar a vida mesmo. Fico feliz por ter tido tantos choques culturais que me fizeram ver o mundo de outra maneira.
      E que bom que buscou isso também pelas andanças mundo afora que vc fez, mesmo que não seja tão positiva como Van, tenho certeza que deixaram boas marcas.
      Bjuuuuuuuuu

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