Mundo Velho sem Porteira

Embora tenha sido criada na megalópole São Paulo, convivendo com os paulistanos de carteirinha com aquele sotaque que todo som parece ter um “i”, pessoas que não saberiam o que significa “pegar os trem”, minha vida sempre teve um viés meio rústico. Quem me conhece sabe que não tenho o típico sotaque paulistano, aquele meio italiano. Tanto que muitos ainda me perguntam se sou “de São Paulo mesmo”, porque meu sotaque está mais para o povo do interiorrrr. Certeza que é a influência do mineiro-brasiliense-paraibano-goiano que tenho família afora.

Masss, abrindo um parênteses, quando estou ao telefone trabalhando, ou seja, em papos formais, meu sotaque é o paulistano-italiano. Acho que sem querer criei um personagem.

Enfim, estou aqui falando falando de sotaque, mas não era bem essa linha que eu queria seguir. Na verdade era só pra dizer que adoro esse meu lado raiz, que se aflora demais aqui em Goiânia, e principalmente com minha família de Brasília. Muita coisa aqui remete às minhas férias em Brasília e região, que envolvia passeios por roças nas redondezas, sítios, banho de rio, cachoeiras, barragens; comer manga direto do pé, chupar cana recém-cortada, se acabar de jabuticaba até dar dor de barriga; sentir o cheiro do café sendo torrado – depois ajudar a tia na moagem, comer o autêntico queijo minas recém preparado, pão de queijo quentinho; os doces de mamão verde, laranja, figo, cidra; frequentar feiras (pra comprar qualquer coisa, desde comida até roupa); toda refeição envolver feijão-tropeiro, feijão verde, pamonha, bolinho de milho/pamonha frita (amo, amo, amo).

E minha mãe tem cada história da época que moravam na roça que daria um livro, que aliás sonho em escrever um dia. Vai desde minha vó matando cobra com a espingarda, até ela (minha mãe) com 6 anos, colocando a irmã caçula (bebê) dentro de um buraco raso enquanto ela brincava. Sim, porque nessa idade ela já cuidava dos irmãos, da casa, comida, roupa, mas era só uma criança.

Assim, com esse lado matuto aflorado desde sempre, um belo dia enquanto eu fazia teatro  ouvi um nome que me encantou pela primeira vez, Cora Coralina, de um professor inesquecível até hoje.

Cora Coralina, seus textos singelos, sua inteligência rústica, sua sabedoria da terra fizeram com que eu me apaixonasse por você, e assim sonhar um dia conhecer sua casa, numa tal cidade chamada Goiás Velho.

Feliz da Vida!

E a vida, com seus poréns e curvas me trouxe para Goiânia, há apenas 140 km da cidade de Cora Coralina. E pra lá eu fui recentemente. Que cidade única!

O trajeto pela estrada já vale a pena, são muitas fazendas pelo caminho, um visual bem bonito, porém a GO-070 é meio esburacada. Cuidado. Chegando mais perto da cidade, a paisagem muda consideravelmente e já começa a surgir uma serra, paisagem não muito comum por aqui, e ela vai crescendo e circundando boa parte da cidade, é a Serra Dourada (que inclusive deu nome ao estádio de Goiânia). Vale lembrar que Goiás Velho teve seu período de auge por causa do ouro, e durante quase 2 séculos foi a capital do estado. Aliás, o nome correto da cidade é Goiás.

Goiás Velho

Chegando na cidade, tirando a linda serra, parece comum, uma típica cidade do interior, calma, silenciosa, construções simples, estabelecimentos comerciais com fachada pintada a mão. Cadê a cidade colonial de que tanto ouvi falar? Pensei. Aí a avenida que liga a estrada até o centro, começa a afunilar consideravelmente, e parece que num passe de mágica te joga dentro de um centro histórico que mais parece tirado de uma cidade cenográfica da Globo, ruas de pedra, casas no estilo colonial, construções ao estilo barroco, cores, muitas cores, madeira, pau a pique, portas e janelas enormes, becos estilosos, e a Serra Dourada, abraçando todo o centro, que merecidamente tem o título de Patrimônio Mundial da Unesco, que segundo a internet diz: “por sua arquitetura barroca peculiar, por suas tradições culturais seculares e pela natureza exuberante que a circunda.”

Chegamos num domingo chuvoso e tarde, assim todos os estabelecimentos turísticos estavam fechados, inclusive a “Casa Velha da Ponte”, a famosa casa de Cora Coralina. Quase chorei quando soube, faltou pouco. Mas percorri 140 km para aproveitar, certo? Pensei comigo. Então abri meu guarda-chuva e fui conhecendo aquela pérola do centro do Brasil. Fiquei maravilhada e com vontade de entrar em cada casa que eu via a porta aberta, talvez tomar um café, comer um doce, bater um papo. Eu ia amar, mas confesso que faltou coragem e sobrou uma certa vergonha na cara, afinal eu iria molhar toda a casa do sujeito.

Goiás Velho
O bacana de ter ido assim, fora do horário turístico, foi que a cidade parecia toda nossa. Andamos gostoso, só nós dois por várias ruas, como numa viagem de reconhecimento do local. O destaque ficou para os doces, super famosos também por causa de Cora Coralina, que era doceira de mão cheia e passou suas receitas, que hoje continuam sendo passadas de geração em geração. Lá você encontrará doces cristalizados do tipo: mamão verde, melancia, goiaba (nota mil), pé de moleque (irresistível), queijo (amo), doce de leite (óbvio), figo, limão, cajuzinho do cerrado, uma infinidade de sabores. Um melhor que o outro. Oh trem bão, como diria a parte mineira da família.

Goiás Velho

Hoje não vai ter receita. Quero que vocês se deliciem apenas com as fotos da cidade de Goiás – para os íntimos, Goiás Velho mesmo. Amanhã ou depois eu vou postar outra receita de torta de banana que testei e ficou bem gostosa. Enquanto isso você fica com as fotos da casa de Cora Coralina pra fechar o post.

Casa de Cora Coralina

Deleite-se!

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6 respostas para Mundo Velho sem Porteira

  1. Poliana disse:

    Que lindo, adorei as fotos!! Nunca imaginei que Goiás velho fosse tão lindo, parece cidade cenográfica da Globo mesmo!!

  2. Pingback: Poema de Cora Coralina | Deleite da Vida

  3. Pingback: O centenário do blog | Deleite da Vida

  4. Pingback: O que já vi lá no Goiás | Deleite da Vida

  5. Raquel Nogueira disse:

    O seu lindo passeio é realmente um deleite. Quero sentir os ares de Goiás na minha pele em breve! Beijos

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