Quem é o meu pai?

Existe uma prática comum nos blogs, que é escrever cartas aos filhos, principalmente detalhando cada grande conquista dos pequenos. Acho uma graça, porque fico imaginando esse filho adulto podendo ler em detalhes como foi sua vida, geralmente pelo ponto de vista da mãe. Hoje quero fazer o mesmo, mas como ainda não tenho filhos, a carta vai para o meu pai.

Pai, desde ontem venho matutando acontecimentos e emoções que passamos juntos, e nesses 29 anos que te conheço posso garantir que foram muitas, aliás eu sugiro acrescentar um sobrenome ao seu nome: Emoções da Silva, porque essa palavra foi feita pra você!

A mãe sempre me dizia que você tinha mania de beijar minha boca quando eu era bebê, conhecendo você da maneira que conheço, tenho certeza que mordia também. Como eu gostaria de ter essa primeira lembrança! Acho injusto Deus nos ter feito assim, sem podermos lembrar nossa vida de bebê. Seguindo essa linha queria muito ver a sua cara quando me viu pela primeira vez. Aposto que chorou!

Um pouco maior eu lembro bem de você me fazendo cócegas nas costelas e na barriga até eu perder o ar… eu morria de rir, mas ao mesmo tempo era terrível, ficava mole mole, sem forças, e você fazia isso sempre, e geralmente me pegando desprevenida. E as ameaças de jogar os filhos pelo janelão? Até hoje sinto o frio na espinha daquela época. Pai, você sempre foi uma peste, e não mudou nada, porque continua a fazer o mesmo com os netos.

Você também tinha o dom de me fazer chorar, e não falo de emoção, mas de raiva, de ódio mesmo, me garantindo assim o meu trauma de infância. Tenho certeza que sabe do que estou falando: Nazaaaaaaa… caladaaaaa… (achei um episódio desses, não deixe de ver e morrer de rir das lembranças!). Minha mãe até hoje não entende por que eu ficava tão irada, porque segundo ela eu era uma menina linda, mas acabava caindo na onda do meu pai que dizia que eu era a cara da Sofia. Eu tenho uma resposta pai e mãe: eu era a criança mais tímida do universo, sentimental até dizer chega, então eu sinceramente achava que era verdade.

Nunca vou esquecer do seu cuidado comigo no dia que fui atropelada, no hospital, atravessando a rua pra ir embora comigo no colo, mesmo eu já tendo uns 10 anos (não lembro ao certo o ano). Desculpe por ter dado esse susto em você tão perto do seu aniversário.

Pai, você é o rei das surpresas. Adora preparar uma das boas e fazer as pessoas se emocionarem. Por quantos anos tivemos medo de você matar a vó do coração nas chegadas de surpresa em Brasília? E a compra do seu primeiro carro então? Ficou quase um mês atazanando os filhos com um tal de “Aqui e Agora”, e quando chegou o grande dia mandou fazer até faixa para nos apresentar a Brasília azul… aquele dia foi pura emoção! Ah, obrigada por nos proporcionar ir de carro até a casa da vó, não aguentava mais o martírio de ônibus-metrô-ônibus, que no começo do trajeto era pura farra, mas no final ficávamos cansados e chatos.

Sempre gostei muito de ler e de escrever, até hoje me lembro de quando comecei a desvendar o mundo da leitura e tenho certeza que esse espírito de desbravadora eu puxei de você, meu pai incansável, lutador, e também poeta, com suas lindas cartas para o EJC, com suas fortes palavras em nossas orações das mais diversas ocasiões. Não tenho dúvida alguma do motivo de você ser tão amado pelos filhos postiços que arrumou durante a vida. Você é um ser especial, abençoado por Deus, que não esconde seus dons, mas doa com muita gratidão a todos que têm o prazer de conviver com você.

Meu pai, você não é perfeito, mas nunca queria que fosse, porque se hoje sou quem eu sou é justamente por todas as lutas, tristezas, mas acima de tudo superações, que você me fez passar. A sua história de vida poderia ser vista por muitos como triste, mas você transportou a barreira de ter sido tirado dos braços do seu pai de sangue, de sua mãe tê-lo deixado para ser criado por seus tios, que nunca em toda vida duvidaram serem seus verdadeiros pais e nossos verdadeiros avô e avó. Por toda essa imperfeição, mas acima de tudo experiência de vida, eu sou grata por ser sua filha. Se não fosse tudo isso, hoje eu não seria quem sou, e saiba que eu amo ser quem eu sou. Essa é nossa história!

Conheço muitas pessoas que reclamam da vida, que se trilham pelo pessimismo e só lembram das tristezas e sofrimentos. Tentei achar alguma lembrança sua desse tipo e não encontrei nenhuma, até nos momentos mais difíceis você sempre tira uma boa história pra contar. Quantas não foram afinal do seu trabalho? Mesmo daquele dia fatídico no hospital do Mandaqui você montou sua pastinha e saiu contando pra quem fosse sua aventura, que quase matou a mãe de susto, diga-se de passagem, isso por que você sempre foi um profissional exemplar. Graças a você eu não consigo ver um policial militar e ter raiva, como muitos em nosso país sentem… por ter tido um ótimo exemplo dentro de casa eu acredito na profissão.

Sempre que eu penso no dia que não estará mais presente em minha vida eu choro (como agora), mas eu sei que as lembranças mais fortes que ficarão de você sempre estarão relacionadas ao choro, porque você não esconde as emoções, nem de alegria, tristeza, raiva… seus olhos dizem o que você sente, e sempre que há uma emoção, há uma lágrima para complementar. Exemplos que eu lembro: formatura da faculdade, apresentação da monografia da pós, suas palavras quando consegui o visto para o Canadá, sua alegria quando consegui o emprego que eu tanto queria, mas que acabou não concretizando e me levando pra tão longe. Estar longe de você num dos momentos mais felizes de sua vida (a doação da medula ao seu irmão) e num dos mais tristes (a morte do tio Geraldo) me fizeram questionar a vida e a distância, pois são muitas ocasiões além dessas, e a mais forte foi da minha partida, mas a alegria das voltas mensais compensam todo o esforço.

Pai, meu orgulho e gratidão a Deus por você não tem tamanho. Eu não tenho a lembrança de bebê, mas tenho certeza que te amei no segundo que te vi e sabia que você seria o melhor pai do mundo pra mim. Tem sido até agora e criou um filho digno de ser chamado de pai, que nos deu os dois maiores presentes e motivos de grande alegria lá em casa.

Sinta-se abraçado e beijado por mim. Que Deus te converse com muita saúde e paz.

Eu te amo! De sua filha distante, Tati.

Galera, hoje não tem receita, mas essa foto apetitosa é um exemplo do café da manhã do meu pai, que ontem eu fiz um pra mim especialmente pra esse post. Até hoje quando meu pai vê morangos ele lembra de mim, e principalmente da minha cara de “pidona” na feira quando criança e via os morangos… na época era tão caro que a presença deles na sobremesa era motivo de grande alegria pra mim!

Ahh e todo ano meu bolo de aniversário tinha que ser de que? De morango, claro!!!

Feliz dia dos pais a todos os papais que conheço!

Deleite-se com a vida!

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10 respostas para Quem é o meu pai?

  1. roseli disse:

    Um ser humano tão maravilhoso, só poderia ser abençoado com uma esposa maravilhosa, com filhos divinos e com netos abençoados. Tati, vc traduz toda a emoção de ser filhade quem é. Amo vcs prá sempre e até o infinito. Beijos no coração. Tia Rô

  2. Lindo…lindo…lindo…..só tenho a dizer que você definitivamente é filha do Sr. Marinho Sergio da Silva legítima…rs. Fiquei muito emocionada com suas sábias e lindas palavras, obrigada por ser quem é….te amo minha irmã!!!

  3. Flávia Michels disse:

    Parabéns Tati,essas palavras só existem pois são a tradução do que chamamos de FAMÍLIA e a de vocês com certeza é super especial!Não esqueço do dia das mães que eu estava grávida e seu pai fez todas nós (mães) chorar com as suas lindas palavras!Esse momento ficou gravado na minha memória e no meu coração!Parabéns pela família e pelo paizão!Bjos

  4. Coisa mais linda Tati!!!! Muita emoção…Quer me fazer chorar….rs, eu não convivi com meu pai de sangue, perdemos o contato quando eu tinha 3 anos de idade, e nem sei se hoje ele está vivo, mas ao ler seu post, não poderia deixar de lembrar do meu avô materno, que foi uma pessoa super presente e que representou muito bem o papel de pai em minha vida! Essas lembranças ninguém tira de nós, estarão sempre guardadas em nosso coração.Bjs.

  5. Luiz Eduardo Pereira Martins disse:

    Quem é o seu Pai???
    Uma ótima pergunta que merece uma resposta à altura…

    (mensagem duplicada – resposta oficial a seguir)

  6. Luiz Eduardo Pereira Martins disse:

    Quem é o seu Pai???
    Uma ótima pergunta que merece uma resposta à altura.
    Marinho Sérgio da Silva, seu pai, um homem que conheci há vinte anos atrás, homem este que me recebeu de braços abertos, pronto e capacitado para me mostrar e ensinar o lado correto da profissão que eu havia escolhido, profissão esta que ele tinha bastante bagagem e conhecimento. Posso até dizer que este camarada por diversas e inúmeras vezes agiu como agiria meu pai, me dando conselhos e porque não alguns puxões de orelha quando eu fazia alguma arte.
    Marinho Sérgio da Silva… um guerreiro, um verdadeiro pai de família que sempre fez questão de mostrar para mim e várias outras pessoas que preenchiam grande parte do seu tempo, o homem apaixonado pela família, filho, filhas e especialmente a mulher que foi, é e sempre será a sua cara metade, aquela que ele sempre fez questão de me mostrar o quanto à ama e o quanto é importante na sua vida. Jamais irei me esquecer o que esse grande amigo fez comigo no meu casamento, exatamente no dia 12 de julho de 1997, onde acompanhado da sua família maravilhosa, também não poderia ser diferente, levou-me a gravata que ele usara em seu casamento com a Dª Iris, para que fosse cortada, e com isso arrecadado um ótimo valor em dinheiro, o qual patrocinou grande parte da viagem da minha lua de mel na época, o maior detalhe desta história é que se não bastasse a surpresa de fazer isso com a gravata que ele usou em seu casamento, também trouxe uma tesoura “virgem” para ser usada naquela ocasião.
    Meu amigo “QUEIXADA”, gostaria de deixar registrado aqui o quanto você foi, é e sempre será importante em minha vida, um exemplo de pai de família e ser humano magnífico.
    Um forte abraço e que Deus continue te abençoando e te iluminando, para que você consiga alegrar a todos nós.
    Luiz Eduardo Pereira Martins

  7. Vanessa disse:

    Tati, Amei! Tem eu ali espremidinha na foto… rsrs…
    Prima, apesar da distancia, que tivemos em todos esses anos (e a gente nem sabe porquê), percebi muitas coisas em comum, em nós, depois desse reencontro virtual. Talvez pelo signo, sei lá… mas lendo este post, percebi que essas coisas em comum, vão além do signo: O orgulho de ser quem somos, das nossas raízes sofridas e que nos tornaram pessoas com muita garra, mas cheias de compaixão, sem sermos melancólicas. Somos mais ou menos assim: sentimos por nós e sentimos pelos nossos queridos! E sendo assim, somos felizes, mas felizes sem hipocrisia de achar que tudo agora é perfeito e ideal… enxergamos a vida, com muito pé no chão… sem deslumbramentos de um padrão de vida melhor do que o que tivemos no passado… Sinto que isso é viver de corpo inteiro, viver com intensidade é ser feliz de corpo e alma na simplicidade de uma reunião familiar, por exemplo.
    Quando eu penso no meu tio, Mario, na infância, lembro-me bem desta “peste” que você falou. Ele era impossível, porém era o mais divertido e acredito ter sido um pai, que proporcionou à vcs muitas aventuras cotidianas. É prima, isso não tem preço! Quando penso no meu tio Mario, depois de adulta, nas poucas vezes que nos encontramos, identifiquei este homem “Emoções da Silva” Bingo! Em poucas palavras, vc exemplificou com muita percepção, a complexidade de um ser humano maravilhoso e querido por todos. Ta ficando boa nisso hã? rsrs…

    Super bjo!
    Vanessa

  8. Ana disse:

    Que linda tua carta pro seu pai! Adorei! E ele, leu?

    • Que prazer receber um comentário seu no meu blog Ana!
      Sim, ele leu e segundo minha mãe chorou feito uma criança (algo não muito fora do normal pra ele… rs).
      Conversamos depois sobre a carta e foi super bacana. Um dia dos pais especial pra ele e pra mim.
      Bjos, Tati.

  9. Pingback: Quem é a minha mãe? | Deleite da Vida

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